Como fazer a diferença no radiojornalismo?

Como fazer a diferença no radiojornalismo?


Uma dose de criatividade, empatia, aliadas à rotina de trabalho e apuração de qualidade, podem ajudar muito quando o assunto é gerar diferencial para o público. 

Por Fernanda Nardo.


Muitas vezes temos a impressão de que toda a notícia parece igual. É comum você acessar a mesma matéria em um site de notícias, pular para outro, depois para um blog, ouvi-la na rádio, e perceber por fim, que permanece muitas vezes com a mesma estrutura e fonte, ou seja, muito semelhante independente do meio que a publicou. 

Em uma entrevista, o antropólogo Michel Alcoforado, lembra que o rádio, por exemplo, é mais do que uma mídia, é um jeito de comunicar, de conversar e de estruturar o tempo. No entanto, ele destaca que o rádio também encara os desafios das demais mídias que é o da pulverização de meios e mensagens. E coloca o seguinte questionamento: em meio a um mundo digitalizado, com tanta informação, como prender a atenção do consumidor de mídia?

“Temos uma mudança de papel do que é informação. Se você não está gerando diferença, você não está informando. Não adianta dar uma informação de trânsito dizendo apenas que a marginal está parada, isso eu já sei, o que me interessa é como você me conta que a marginal está parada”, diz. Para ele, o importante é como a notícia é contada, se ela gera empatia, envolve criatividade e, até mesmo, uma dose de entretenimento. 

Segundo a professora de radiojornalismo na UEL (Universidade Estadual de Londrina), Mônica Panis Kaseker, para gerar essa diferença é necessário destinar mais tempo para apuração e procurar fontes diferentes.

“O jornalismo tem uma tendência a reproduzir sempre a fala das mesmas fontes, inclusive no rádio. Com isso, estamos perdendo um pouco do olhar mais amplo do ouvir as pessoas que teríamos mais dificuldade de acessar, ou aquelas que estão sendo afetadas por alguma circunstância. Seguimos na repetição de fontes oficiais e institucionais, com pouco trabalho de jornalismo para ouvir as pessoas. Ter mais tempo, pensar sobre o fato e ouvir fontes diferentes, e não apenas as pessoas que estão na nossa agenda”, destaca.

Para ela, essa falta de ampliação das fontes ocorre também por falta de investimento por parte dos veículos de comunicação. “O investimento se reverte em diferencial e qualidade. Como estamos em um momento em que a velocidade acaba se preponderando no processo jornalístico, acabamos perdendo esse diferencial da apuração, dos textos trabalhados e imaginativos, até mesmo das edições mais artísticas usando elementos da rádio-arte no jornalismo. Mas tudo isso requer tempo e investimento. Quando você tem tempo, é possível imaginar, acessar fontes mais difíceis, questionar aquele dado que se apresenta quase como natural”, afirma.   

Investir em competência e rotina

Segundo a jornalista, doutora em Linguística Aplicada e professora do Mestrado em Comunicação da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Nair Prata, não é a diferença no ser, no fazer e no emitir que configura uma programação noticiosa de qualidade. “O acontecimento é que gera todo o complexo processo de produção de uma notícia e não é necessário se buscar formas diferentes de fazer isso, mas sim formas competentes e qualificadas”, diz.

A notícia possui uma função social e quem trabalha em sua produção ou veiculação deve conhecer em profundidade suas peculiaridades e implicações, além das características do público ao qual a transmissão se destina. Outro ponto relevante, é que o processo de produção de notícias no rádio deve seguir uma rotina. “Esta rotinização é fundamental para a qualificação dos processos e entendimento dos resultados, criando-se os padrões tão necessários para um radiojornalismo baseado em competências”, destaca a jornalista.

De acordo com Nair, é preciso buscar a aplicação de três ferramentas fundamentais: seleção noticiosa, a noticiabilidade e os valores-notícia. “Esta é a base e a partir dela se dá a construção da dinâmica das narrativas noticiosas. Junte-se a isso a especialização dos profissionais envolvidos na produção e na veiculação e o resultado será um jornalismo de qualidade que se diferencia pela competência e não por práticas inventivas para chamar a atenção do público”.

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